Biblioteca Casa Tapera

Diário da Tapera

Não sei ao certo em que dia tudo começou, mas às vezes sinto que foi antes mesmo de eu chegar aqui. Como se a casa — ou melhor, o que restava dela — já estivesse me esperando, paciente, recostada no próprio silêncio, deixando que o mato a cobrisse não por abandono, mas por pudor. Havia algo naquelas paredes tortas que lembrava um animal ferido, velho, mas disposto a levantar se alguém chamasse pelo nome certo.

Chamei.

Ou talvez tenha sido o contrário: talvez a Tapera tenha me chamado primeiro.

Naquele dia, quando atravessei o terreiro com o sol batendo no chão de terra, senti que a casa não era apenas uma ruína — era um convite. Janelas sem esquadrias olhavam para mim como olhos que ainda enxergavam o mundo, apesar de tudo. Um cheiro de madeira antiga, de ferrugem e de história entranhada me fez acreditar que ali havia mais do que destroços: havia possibilidade.

Foi assim que começou a nascer o que hoje chamam de Casa Tapera, mas que, para mim, sempre foi apenas um gesto de retorno. Eu não restaurava a casa; restaurava a mim mesmo.

Enquanto varria o chão pela primeira vez, lembrei da infância, das casas com janelas de ambos os lados que nunca vivi, da sensação de luz entrando como promessa. Aqui, a promessa estava escondida sob o pó. Levantei as telhas, tratei o cupim, apartei as paredes com as próprias mãos, como quem consola alguém que volta a respirar. Cada martelada parecia uma espécie de oração.

Foi só depois que a casa se firmou de novo, depois que o barro parou de desabar, que percebi: o espaço queria mais do que existir. Queria habitar.

A primeira estante da biblioteca foi colocada onde antes havia uma parede rachada. Coloquei os livros devagar, como quem devolve os ossos ao esqueleto de uma criatura mitológica. A cada volume, a casa parecia se endireitar um pouco mais. Alguns livros eram novos; outros chegaram impregnados de histórias de outras mãos, outras vidas. Juntos, criaram um fôlego novo no cômodo.

Os objetos antigos — que hoje formam o início do nosso museu comunitário — foram achados como quem encontra partes de um sonho: uma colher de pau esquecida, uma fotografia sem nome, uma lamparina que insistia em ainda funcionar. As pessoas começaram a aparecer. Primeiro vindo por curiosidade; depois, por necessidade. Estudantes, vizinhos, professores. E então veio o cineclube, como se o telhado quisesse projetar luz nas paredes brancas para que todos pudessem ver o que o interior sempre soube: que o mundo é grande, mas também cabe inteiro dentro de uma sala simples.

Hoje, quando caminho pelo corredor estreito da Tapera e escuto o som de páginas virando, fico pensando que aquela casa em ruínas tinha razão em me esperar. Ela sabia que eu chegaria. Sabia que eu juntaria livros, filmes, vozes, lembranças, panos bordados, café quente, alunos e visitantes — e que tudo isso faria sentido quando colocado dentro dela.

A Tapera não foi reconstruída.

Ela foi reimaginada.

E eu também.

Ainda guardo a primeira fotografia da casa caída, porque preciso lembrar de onde vim — e de onde veio ela. A cada nova atividade — podcast, sessão de cinema, leitura compartilhada, música de violão que surge no final de tarde — sinto que o que antes era ruína virou raízes. E talvez seja esse o segredo da Tapera:

uma casa que renasceu para que outras histórias também pudessem renascer dentro dela.