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“Juca Mulato”: o livro centenário que respira junto com a Casa Tapera
Entre os muitos livros que habitam as estantes da Biblioteca Casa Tapera, há um que não repousa — permanece em estado de vigília. Uma edição antiga, de mais de cem anos, com papel amarelado, cheiro de era, capa já suavizada pelas mãos do tempo. É a 3ª edição de Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, uma obra que não apenas sobreviveu ao século, mas que encontrou, na Tapera, o lugar ideal para continuar dizendo aquilo que sempre disse: que a vida rural guarda uma grandeza silenciosa que a literatura, às vezes, consegue escutar.
Publicado inicialmente em 1917, Juca Mulato foi um marco da poesia brasileira do início do século XX. Àquela altura, quando a literatura nacional oscilava entre tradições românticas e impulsos modernistas, Menotti encontrou uma voz singular para falar do homem do campo — não como caricatura, nem como símbolo decorativo, mas como sujeito de drama, pensamento e desejo. Juca não era apenas um personagem; era um retrato amoroso e trágico do trabalhador da terra, do roceiro que vive entre o sagrado e o cotidiano, entre o esforço do corpo e a vastidão simbólica da natureza.
Essa visão dialoga profundamente com o território da Comunidade de Amorim e com a própria essência da Casa Tapera, que nasceu como guardiã de memórias rurais. Ter ali um exemplar centenário do poema-narrativa é mais que um privilégio estético: é um reencontro entre literatura e chão. O livro parece pertencer naturalmente ao espaço — como se tivesse sido escrito para repousar em uma casa de madeira, entre objetos de tropeiros, panelas antigas, fotografias de famílias, filmes rurais e a luz que entra pelas janelas da Tapera como se folheasse as páginas sozinha.
A preservação do exemplar é outro capítulo importante dessa história. Em perfeito estado para sua idade, o livro demonstra o cuidado de quem o guardou antes, atravessando décadas de mãos, casas, mudanças, leituras e silêncios até chegar à biblioteca. Aqui, ele não é apenas exibido; é compreendido. Um livro centenário, especialmente em bom estado, é mais do que um artefato: é uma presença. Carrega o tempo, carrega o Brasil, carrega a língua quando ainda se escrevia com outras cadências.
Juca Mulato fala de amor impossível, destino, fé, sofrimento e transcendência — temas que, curiosamente, ecoam na vida rural do Espírito Santo tanto quanto ecoavam nos cafezais paulistas da época de Menotti. Por isso, ao ser apresentado a estudantes e visitantes da Tapera, o livro se torna ponte: mostra que a literatura que parecia distante sempre esteve mais perto do que se imaginava. Que a vida do campo não é marginal à história do país: é fundamento.
Na Biblioteca Casa Tapera, Juca Mulato é mais do que destaque: é símbolo.
Símbolo de preservação, de pertencimento, de memória e de uma certeza que o espaço carrega desde sua fundação: a cultura rural tem voz, tem poesia, tem história — e merece ser vista com a mesma reverência dedicada aos grandes centros urbanos.
Enquanto existir a Tapera, existirá também essa aliança silenciosa entre o livro centenário e a casa restaurada: duas ruínas que foram salvas pelo afeto e pela cultura, oferecendo ao futuro aquilo que o tempo quase levou.